Ciência e Vida
20.04.2006

Comigo ninguém pode
Pesquisadores da UFRJ descobriram um antídoto contra a toxidade da
‘comigo ninguém pode’
Por Taisa Gamboa

Estudo da equipe do Departamento de Farmacologia Básica e Clínica, em parceria com o Laboratório de Toxinas e Substâncias Antagonistas do Instituto de Ciências Biológicas (ICB) da UFRJ descobriu uma substância que já existe no mercado capaz de inibir os efeitos tóxicos da “comigo ninguém pode”. Depois de cinco anos de pesquisa, já é possível controlar de forma barata e eficaz a ação mortal da planta.

O Brasil possui uma grande variedade de plantas tóxicas em sua flora. Várias espécies são nocivas ao homem e aos animais. Uma das mais conhecidas é a Dieffenbachia picta Schott, comumente chamada de “comigo ninguém pode”. De origem tropical é fartamente encontrada como objeto de ornamentação, mas oferece grande perigo à vida, por isso seu contato deve ser evitado.

De acordo com a doutoranda Etyene Lacerda, do Laboratório de Toxinas e Substâncias Antagonistas, a partir de todas as partes da planta é possível extrair o sugo da espécie que contém a substância tóxica, ainda não identificada. Especula-se a respeito do oxalato de cálcio; segundo a Sociedade Brasileira de Dermatologia, esta substância pode provocar edema na garganta levando à asfixia e, em casos mais extremos, até a morte.

Além destes, outros sintomas comuns são a sensação de queimação, irritação de mucosas, edema dos lábios, boca e língua, náuseas, cólicas, vômitos, diarréia, salivação abundante e dificuldade de engolir. O contato com os olhos pode provocar irritação intensa com desenvolvimento de edema e congestão da mucosa ocular, seguida de lacrimejamento, além de lesão da córnea.

Na tentativa de descobrir como se dá o processo de intoxicação, o professor do departamento do ICB, Nuno Alvarez Pereira, propôs um modelo onde a planta causaria um edema de língua e de glote suficiente para matar. A partir desta situação, o professor e orientador de Etyene Lacerda, Paulo Melo reproduziu a resposta inflamatória em um animal, sem o matar.

O estudo, que chegou a ser publicado, apresenta as normas para a realização dos testes e análises, segundo os quais, tira-se e corta-se o caule, que deve ser espremido até a formação de um suco. Este caldo é depositado na boca do animal, que desenvolve o edema. Em 60min o inchaço alcança o seu ponto máximo. Em seres humanos o processo é mais rápido e em minutos pode ser fatal. Mas tudo depende da quantidade da planta que é ingerida.

A pesquisa ainda está em fase de experimentação e apesar dos esforços, não se tem a confirmação acerca da substância que causaria o edema. As indagações variam entre o fósforo lipídico; um componente de coloração avermelhada dissolvido dentro da célula da planta e ainda não identificado; idioblastos; e a opção mais cotada, os cristais de oxilato de cálcio. Segundo a pesquisadora Etyene Lacerda, ao entrar em contato com a mucosa, estes cristais sairiam da célula da planta e levariam com eles a substância vermelha desconhecida. Os cristais funcionariam como agulhas espalhando a substância tóxica, o que provocaria o edema.

Um dos resultados mais importantes da pesquisa foi a identificação de uma substância antagonista, que apresenta ação similar a de um antiinflamatório. De acordo com a cientista Etyene, o Eugenol, que tem aplicação odontológica, analgésica, anestésica local, e bloqueadora de canais de cálcio, é um medicamento que inibi de forma eficiente o edema.

Diante desta descoberta, algumas substâncias com ação antiinflamatória seriam óbvias no tratamento, mas não são todas que inibem a toxidade com mecanismos similares ao do eugenol. Segundo o estudo da equipe do departamento de Farmacologia do ICB, os vários mecanismos de ação desta substância dificultam a determinação do real inibidor. Etyene Lacerda chega a levantar a hipótese de que este conjunto de atividades seja o responsável pela ação positiva na cura.

A pesquisa está sendo finalizada no fim deste ano e, embora ainda não se possa garantir a ação maligna dos cristais de oxalato e a eficácia do eugenol, tudo leva a crer que em breve teremos um novo medicamento no mercado. A equipe do laboratório do ICB tem interesse em patentear o remédio para deixá-lo acessível à população, até porque, sua composição é simples e barata. Inclusive o medicamento já se encontra no mercado, mas é necessário alterar sua fórmula para o melhor aproveitamento de sua ação inibidora do edema.


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