Microscópio
30.03.2006
Descobrindo a Agricultura Orgânica
Por Mariana Granja


A Agricultura orgânica no Brasil vem crescendo de forma assustadora;cerca de 30% ao ano, e será tema de debate no próximo mês, na Conferência Mundial de Mercados Atacadistas que ocorre entre 25 e 28 de abril em São Paulo. A conferência vai abordar o crescimento e as perspectivas da Agricultura Orgânica no Brasil.

Para discutirmos esse assunto o Olhar Vital procurou o professor Orlando Martins, chefe do laboratório de Biologia Molecular do Instituto de Bioquímica Médica da UFRJ. Segundo ele, o alimento orgânico “é um produto que privilegia a preservação ambiental, a agrobiodiversidade, os ciclos biológicos e a qualidade de vida do homem, visando a sustentabilidade social, ambiental e econômica no tempo e no espaço. Baseia-se na conservação dos recursos naturais e não utiliza fertilizantes de alta solubilidade, agrotóxicos, antibióticos, aditivos químico-sintéticos, hormônios, organismos transgênicos e radiações ionizantes”, explica.

No início da produção orgânica é necessário “conhecer os princípios da agroecologia, conhecer os procedimentos aprovados (normalmente são os manuais das certificadoras) e os termos da Instrução Normativa que regulamentam a produção e venda de produtos orgânicos. Precisa parar de usar os produtos proibidos (agrotóxicos, por exemplo) e proceder a uma desintoxicação do solo com o plantio de um coquetel de plantas para adubação verde”, esclarece o professor, acrescentando que normalmente o aprendizado leva dois anos, tempo também usado para a desintoxicação do solo, e que neste período o produto não pode ainda ser vendido como orgânico.

Para os pequenos produtores, a agricultura orgânica pode ser um grande investimento, ou um convite à falência. Enquanto gastam menos com produtos químicos, têm maior independência e obtém maior preço no produto final, também têm que competir com grandes produtores convencionais. Mas, depois do risco, percebem as vantagens de se plantar produtos orgânicos. “A agricultura orgânica tem forte componente de justiça social, remuneração justa e direitos trabalhistas legais. Além disso, a diversidade necessária para o equilíbrio das populações de pragas é mais fácil de ser conseguida pelos produtores familiares. Para o produtor, a agricultura orgânica significa mais saúde para si e para sua família por não envolver o uso de agrotóxicos”, avalia Orlando.

Já os consumidores não têm o que reclamar. Os alimentos orgânicos que consomem não utilizam agrotóxicos, hormônios e antibióticos, e são nutricionalmente mais ricos. Além disso, “o consumidor tem garantias de que as leis trabalhistas e de proteção ambiental estão sendo cumpridas e excedidas, pois a produção orgânica protege o ambiente (matas, cursos de água, lençóis freáticos, flora e fauna), e dar mais qualidade de vida (saúde, remuneração justa) aos agricultores”, afirma o professor.

Quanto ao preço dos alimentos, pode crescer, mas há razões justas para isso: é necessário manter áreas de preservação ambiental, a produtividade de alguns alimentos é menor, há maior uso de mão de obra e melhor remuneração dessa mão de obra. Ainda existem os custos de certificação quando esse produto vai parar em supermercados.

O Brasil tem se desenvolvido de forma muito harmonioza na produção orgânica. Estando atrás somente da Austrália, EUA, Argentina e Itália, planta de tudo um pouco. O forte são os produtos hortícolas que abastecem o mercado interno e os produtos de exportação, laranja, mamão e outras frutas tropicais, além de soja, açúcar e café.

A razão para esse crescimento? O professor acha que os consumidores estão mais exigentes, querem saber como seu alimento está sendo produzido e estão entendendo que podem promover mudanças no campo apenas exercendo seu papel de consumidor responsável. Além disso, “também perceberam os riscos para a saúde quando se maneja criações e cultivos como se fossem simples indústrias de parafusos, massificando a produção e intensificando os lucros”, finaliza Orlando.


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