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Edição 213
29 de abril de 2010

Ciência e Vida

Pesquisadores do Instituto de Biofísica decifram o vírus da dengue


Estudo da interação entre proteínas virais e proteínas da célula hospedeira é a base para o controle da doença


Thiago Etchatz


Foto: Divulgação IBCCF
Professor Ronaldo da Silva Mohana Borges coordenador do Laboratório de Genômica Estrutural do IBCCF

O Laboratório de Genômica Estrutural do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho (IBCCF-UFRJ), coordenado pelo professor Ronaldo da Silva Mohana Borges, vem estudando as estruturas moleculares do vírus da dengue, a fim de entender como ocorre sua interação com a célula hospedeira. Tal análise é o ponto de partida para o desenvolvimento de kits de diagnóstico da doença, mais eficientes e baratos, e, futuramente, de drogas ou mesmo de uma vacina para o controle da dengue. Os resultados preliminares evidenciam que o mapeamento das proteínas do vírus da família Flaviviridae tem sido bem sucedido.  

A dengue se caracteriza por ser uma doença aguda e de rápida evolução, que tem como principal sintoma a febre alta. Endêmica do sudeste asiático, nas últimas duas décadas tem originado epidemias em regiões tropicais, como no sul do Pacífico, na África Oriental, Caribe e América Latina. As temperaturas elevadas e a umidade desses locais são ideais para a reprodução do mosquito Aedes aegypti, principal vetor do vírus.  

Por ser uma patologia tropical, distante dos grandes centros de pesquisa, foi somente com as recentes epidemias em escala global que a comunidade científica se debruçou sobre o tema da dengue. “Até pouco tempo, de fato, havia escassez de informação quanto à infecção e replicação do vírus da dengue na literatura científica. A dengue era uma doença negligenciada. No entanto, vem tomando importância para a saúde pública e os estudos contam com apoio das instituições de fomento à pesquisa”, avalia Mohana.  

Os pesquisadores do Laboratório de Genômica Estrutural realizam, a partir de metodologia bioquímica, o estudo das proteínas do vírus da dengue, da biologia molecular e estrutural, para analisar seu mecanismo de infecção. “Estamos tentando entender como as proteínas do vírus da dengue interagem, conseguem modificar as proteínas da célula, as infectando e alterando o seu funcionamento”, avalia o coordenador. 

Em todos os estágios da infecção, há intensa comunicação entre vírus e célula hospedeira. Esse é o ponto fundamental para entender o comportamento do vírus e desenvolver uma maneira de combatê-lo. "Temos várias frentes de estudos que visam a saber exatamente quais são as moléculas-chave na fusão das membranas e na interação entre vírus e célula hospedeira. Futuramente, podemos usar essa interação como alvo para a produção de drogas. Se inibirmos a interação entre moléculas podemos inibir o processo de infecção”, afirma.  

A estrutura do vírus é bem simples, consiste numa fita simples de RNA (material genético) envolta por uma membrana lipoprotéica. A infecção ocorre quando a membrana do vírus se funde à membrana da célula hospedeira e incorpora seu material genético. Assim, a célula hospedeira passa a produzir proteínas virais, como as proteínas não-estruturais NS3 e NS5, envolvidas na produção e montagem de novos vírus, aumentando a carga viral e desencadeando os sintomas da doença. 

Mohana revela que não era o objetivo principal do grupo de pesquisa, “mas na parte de diagnóstico conseguimos obter purificada uma das proteínas não estruturais do vírus, a NS1, que circula no sangue do paciente quando há infecção”. Desse modo, “o diagnóstico da dengue é realizado a partir de um kit mais barato (os dois kits atualmente comercializados são importados e também detectam a doença pela presença da proteína NS1) e que pode ser utilizado rapidamente nos hospitais nos momentos de epidemia para saber ao certo se o paciente apresenta a doença e para que se possa encaminhar corretamente o tratamento”, complementa.  

Uma das linhas de pesquisa do laboratório atua na área de identificação de compostos antivirais. Desenvolvida em parceria com o professor do Instituto de Biologia Amílcar Tanuri, além de professores do Instituto de Química da UFRJ e da Faculdade de Farmácia da UFF, busca sintetizar compostos orgânicos que são testados contra enzimas do vírus para encontrar um possível agente inibidor. “Seria uma forma paliativa de controle da dengue. A pessoa será infectada, mas terá uma droga que dificultaria a propagação do vírus para outras pessoas”, analisa o coordenador. 

Sem vacina, combate ao mosquito é melhor prevenção

O professor Ronaldo afirma que a vacina é a melhor maneira de combater a dengue. O pesquisador conta que existem quatro sorotipos do vírus e cada um causa determinado tipo de dengue (DEN) – tipo 1 (DEN1), tipo 2 (DEN2), tipo 3 (DEN3) e tipo 4 (DEN4). O grande problema é que a infecção com uma delas só confere imunidade ao tipo atacado , ou seja, não imuniza o paciente para os demais.

Pelo contrário, quando há contágio com um segundo tipo de dengue, diferente do primeiro, parece aumentar as chances de a doença progredir para formas mais graves, como a dengue hemorrágica. “É muito difícil de se obter a vacina, porque ela precisa ser tetravalente, além de atuar no mesmo espaço de tempo. Já foram testadas algumas vacinas na Ásia, mas até hoje não há uma vacina comercial", explica. Mohana alerta que a melhor forma de prevenir a dengue é evitar foco de proliferação do mosquito, o que depende do empenho da sociedade e dos órgãos públicos. 

Perspectiva 

Por fim, o coordenador do Laboratório de Genômica Estrutural do IBCCF avalia que “dentro da parte de inibidores, já temos um composto patenteado e estamos em via de patentear outro. Além disso, estamos fazendo os últimos ensaios em relação ao desenvolvimento do kit diagnóstico de dengue, mas precisamos de um número maior de soro de pacientes. Fizemos com cinco e o ideal seria mais de 100. Precisamos ter acesso ao soro de pacientes, o que tem sido a nossa grande dificuldade.”

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