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Edição 191
01 de outubro de 2009

Faces e Interfaces

Tratamento com águas termais: milagre ou ciência?

Cília Monteiro e Thiago Etchatz

A utilização de águas termais para curar males do corpo humano é uma prática milenar, adotada por diversos povos, como gregos e romanos. Atualmente, o método ainda é utilizado por muitos que acreditam no poder terapêutico do líquido que brota de determinadas fontes. Exemplo disso é a grande procura pelas águas de Ibirá, cidade do interior paulista: diversos usuários consideram sua ação milagrosa. Acredita-se que as águas sejam benéficas a ossos, músculos, colesterol, sistema urinário e principalmente para a pele, combatendo a psoríase. Ainda há quem relate a eficácia até mesmo contra tumores.

Desde maio de 2006, uma portaria do Ministério da Saúde autoriza os tratamentos termais na medicina complementar. Mas, sem pesquisas que comprovem a eficácia das águas termais, os médicos nem sempre receitam o tratamento para os pacientes. Suspeita-se que os resultados positivos na saúde sejam em função do vanádio, um dos elementos químicos encontrados na composição das águas.

Para falar sobre a prática da utilização de águas termais, a atuação do vanádio no organismo e discutir sobre a prescrição médica das águas, o Olhar Vital convidou os especialistas Miguel Lemos, médico farmacologista e professor da Faculdade de Farmácia da UFRJ e David Azulay, professor de dermatologia da Faculdade de Medicina da UFRJ.

Miguel Lemos

Médico farmacologista e professor da Faculdade de Farmácia da UFRJ

“Não acredito no poder de cura das águas termais, mas elas trazem benefícios. Em princípio, é importante salientar que a pele constitui um revestimento resistente ao atrito. É altamente impermeável à água, devido à presença de uma camada de células queratinizadas. Desta maneira, existe uma barreira natural para a absorção de substâncias hidrossolúveis, as quais não atravessam a pele íntegra.

É muito comum misturarmos os conceitos de banhos termais com hidroterapia. A segunda associa os efeitos da água em nosso corpo a técnicas fisioterápicas e exercícios, muita vezes presentes devido ao empuxo da água. Ou seja, o pacienta já está se exercitando pelo simples fato de se movimentar imerso na água. Isto desencadeia vários benefícios, como relaxamento dos músculos, analgesia, aumento da resistência e força muscular, melhor distribuição da circulação periférica e das dores de coluna, uma vez que estes movimentos são realizados sem pressão nas vértebras.

Quanto ao vanádio, é um metal mutagenico presente no petróleo e nos hidrocarbonos. É capaz de causar mudanças genéticas em plantas, animais e seres humanos, dependendo da sua concentração no organismo. Além da presença nas águas, pode também ser encontrado em pequenas quantidades em pimenta, ovos, óleos vegetais, aveia, cereais, frutos do mar, soja, milho e gelatina.

Nos seres humanos, não foi comprovada a sua essencialidade. Até o momento não existem estudos que demonstrem sua segurança. Foi demonstrado, em 1998, que o sulfato de vanádio apresentou efeitos benéficos em pacientes portadores de diabetes tipo 2, possivelmente aumentando a sensibilidade à insulina. Também é utilizado por fisioculturistas de maneira não comprovada, como uma substância anabólica empírica, que favoreceria a incorporação de aminoácidos nos músculos, mimetizando a ação da insulina. Portanto, devemos ter cautela com o uso indiscriminado do vanádio. Os efeitos adversos mais frequentes são hipoglicemia e distúrbios gastrintestinais, como náuseas, diarréias e cólicas abdominais.

Na verdade, a melhora obtida entre usuários das águas termais decorre de um conjunto de ações e efeitos da terapia, como hidratação oral desencadeando maior diurese. Ainda a pressão hidrostática massageia o corpo como um todo, e a flutuação na água descomprime vértebras e articulações. Os efeitos antiinflamatórios do calor da água proporcionam aos pacientes uma melhora que surge logo após a imersão e traz como consequencia uma situação imediata de bem estar.

Um tratamento único apenas com águas termais não deve ser prescrito, devido à falta de trabalhos científicos que comprovem a eficácia das águas para pacientes portadores de uma doença clinicamente diagnosticada. Elas podem auxiliar no tratamento de certas doenças, mas não substituem o tratamento farmacológico.”

David Azulay

Professor de dermatologia da Faculdade de Medicina da UFRJ

“A psoríase é uma doença muito comum, atinge de 1 a 2% da população mundial. Costuma surgir a partir da segunda década de vida, mas também existem casos no início da vida e mais tardiamente. É uma doença essencialmente limitada à pele a não ser quando acomete articulações. Por vezes pode até ser grave.

As lesões da psoríase são muito típicas e se caracterizam por lesões avermelhadas, descamativas e bem delimitadas. Tem locais de preferência muito típicos, como cotovelos, joelhos, couro cabeludo e região sacra, mas a psoríase acontece em qualquer localização e também há várias formas.

A doença pode ser bem localizada, que é o mais comum, ou muito extensa. Se for localizada, o tratamento preferencialmente será feito com medicamentos tópicos. Se for extensa, envolve um tratamento sistêmico, com medicações, em geral, pela boca e raramente injetáveis.

A questão das águas termais não é nenhuma novidade na medicina, sempre foi aplicada. Agora, comprovar cientificamente, nunca vi realmente um efeito categórico dessas águas termais. São muito usadas em dermatologia de uns anos para cá, a maioria é importada da França, o que significa que tem um alto custo, mas que não têm nenhuma propriedade maior, mais perceptível do que as da água normal.

Acho que elas podem ser usadas como complemento, mas daí ter alguma eficácia eu particularmente sou descrente. Elas podem não prejudicar mas daí a dizer que muda a história natural das doenças vai uma longa distância.

No mundo moderno existe uma coisa chamada marketing. Então, se um pequeníssimo número de pessoas com enfermidades crônicas for procurar tratamento nas águas de Ibirá, com certeza isso já vai movimentar em muito a economia local. E é possível que algumas das pessoas que vão procurar terão melhorias pelo fato de ter ido até lá.

Primeiro, porque acreditam. Na medicina, é fundamental a pessoa acreditar no tratamento que está se propondo a fazer. Segundo, porque a pessoa vai para um ambiente fora do seu cotidiano, fora do estresse do dia a dia e isso também pode ajudar em muitas doenças em que há um componente emocional envolvido no desencadeamento das lesões.

Pelo que consta, o vanádio foi descoberto, por acaso, em 1801 na França. E se é ele que dá o valor às águas de Ibirá, eu acho curioso porque eu nunca vi a ação dessa substância descrita em nenhuma doença. Se ela é tão poderosa, eficaz como está sendo propagado, eu acho estranho nunca ter lido isso na literatura médica, apesar de estar formado há mais de 25 anos.

Recomendo as águas termais como um coadjuvante, um aspecto bem secundário no tratamento. Mas de fato, elas podem ser úteis, principalmente se as pessoas acreditarem que elas são úteis. Se assim for, melhor será. Seria mais por uma questão psicológica do que fisiológica, com certeza absoluta.”

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